sábado, 28 de agosto de 2010

Louvando na tempestade

Sempre fui apaixonado por barcos. Já tive a oportunidade de fazer algumas viagens. Gosto da tranquilidade das águas. É inspirador o modo como a brisa sopra por cima das pequenas ondas. As belas aves planam no imenso céu azul como se não se importassem com a presença de seus admirados visitantes.

Certa vez, viajei de lancha pela Amazônia. As águas do Rio Amazonas são tranquilas e parecem formar uma linda sinfonia que se une à paisagem incomparável da floresta.

O rio corta a floresta e por isso não é difícil encontrar troncos no meio das águas. O piloto da embarcação precisa ficar sempre atento para desviar das armadilhas do caminho e evitar um desastre. Experiência e atenção são indispensáveis para garantir a segurança dos passageiros.

O que quero dizer é que mesmo em meio à tranquilidade (rio), as adversidades surgirão (troncos). Mesmo sendo servos de Deus, não estamos livres dos problemas da vida. Nascemos de novo em Cristo (João 3.7), mas ainda vivemos em um mundo onde o mal impera, onde o pecado, muitas vezes, vence a santidade.

Você pertence ao Pai, ele toma conta da sua vida. Você, no entanto, vive em um mundo entregue às paixões da carne. “Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno” (1 João 5.19).

Talvez o ambiente onde você trabalhe não seja exatamente um paraíso na terra. As pessoas falam mal de você pelas costas, tentam, de todas as formas, impedir seu crescimento profissional. Mas não se preocupe, não deixe que isso lhe abale. Seja luz no meio das trevas! Pode, por acaso, a luz brilhar no meio da luz? Não, a luz só brilha no meio da escuridão. Deixe sua luz brilhar no meio do caos e faça com que as pessoas percebam que há algo diferente em você!

Permita-me voltar a falar sobre barcos. Em minhas experiências nessas viagens, um sentimento sempre me incomodou. Ao mesmo tempo em que ficava feliz por ter chegado à terra firme em segurança, entristecia-me o fato de ter que abandonar a embarcação. As águas me traziam um estado de verdadeira paz.

Comumente vemos na Bíblia algumas passagens que se referem a “águas”, como no Salmo 23.2: “Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas”.

Agora imagine o seguinte: uma grande tempestade se aproxima. Antes que o comandante da embarcação perceba, ventos fortes começam a soprar. Os instrumentos de navegação nada podem ajudar, pois estão danificados! O que fazer? A que grupo de pessoas você pertence?

Você irá fazer de conta que nada está acontecendo e esperar a morte iminente? Irá se desesperar e, não se importando com ninguém, cuidará de salvar sua própria vida? Ou terá simplesmente fé?

É possível louvar ao Senhor em meio à tempestade?

Lucas nos conta o que aconteceu com ele e os demais discípulos: “Num daqueles dias, [Jesus] entrou num barco com seus discípulos, e disse-lhes: Passemos para o outro lado do lago. E partiram. E, navegando eles, adormeceu; e sobreveio uma tempestade de vento no lago, e enchiam-se de água, estando em perigo. E, chegando-se a ele, o despertaram, dizendo: Mestre, Mestre, perecemos. E ele, levantando-se, repreendeu o vento e a fúria da água; e cessaram, e fez-se bonança. E disse-lhes: Onde está a vossa fé? E eles, temendo, maravilharam-se, dizendo uns aos outros: Quem é este, que até aos ventos e à água manda, e lhe obedecem?” (Lucas 8.22-25).

Os discípulos ficaram apreensivos. Eles pertenciam ao segundo grupo, se desesperaram. Estavam com tanto pavor que somente lembraram que Jesus estava a bordo do barco quando as águas representavam perigo para suas vidas. Aqueles homens estavam acostumados com o mar. Aquela tempestade era apenas mais uma que deveriam enfrentar. Eles pensavam que poderiam passar pela tribulação pelas suas próprias forças, pelos seus próprios meios. É bem provável que antes de acordarem Jesus, os discípulos tivessem tentado – porém, sem sucesso – deter o avanço da água sobre a embarcação.

Até que ponto você consegue suportar? Até onde suas forças são capazes de aguentar as pressões deste mundo? As águas inundaram seu barco e você já não sabe o que fazer?

Mesmo em meio à tempestade, a luz de Cristo brilha forte. Você já percebeu que a luz não se abala com o vento? A luz não se move por causa das tempestades ou das chuvas. A luz permanece imóvel, parece não se importar com os problemas. Eles não a atingem.

Jesus é a nossa luz. Todos os seus problemas são pequenos perante ele. O Salvador está sempre disposto a ajudar, basta você simplesmente “acordá-lo”. Jesus quer ouvir a sua voz a chamar por seu Nome. Ele quer que você confesse com seus lábios: “Mestre, não posso caminhar com minhas próprias forças, preciso do seu amparo. Me ajude. Me salve!”.

Jesus deseja ouvir a sua voz. Louve ao Senhor não importa a situação. Não ligue para a tempestade. Deposite sua fé na luz de Cristo.

Muitas vezes reclamamos da vida. Reclamamos que Deus não se importa conosco, não nos salva de nossos problemas. Eu faço a seguinte pergunta para todos nós: temos conversado com Deus o suficiente? Estamos buscando intimidade com ele? Eu lhe desafio a buscar intimidade com o Senhor. Também me incluo nesse desafio. A voz de Deus deve ser constante em nossas vidas.

Nossas orações são levadas pelos anjos como fumaça até a presença do Senhor (Apocalipse 8.4). Deus se importa com seus filhos. Ele se importa com todos nós. O Pai Celestial se importa com você! Ele reserva uma atenção toda especial para você. Ele só deseja ouvir a sua voz. Converse com seu Pai.


Renato Collyer
(artigo publicado pelo site http://www.icrvb.com/ em 10.02.2010)

domingo, 25 de julho de 2010

Fé para dias difíceis


Ser cristão não pressupõe uma vida repleta de alegrias e alheia às tribulações. Muitas pessoas têm o errôneo entendimento de que seguir a Cristo é viver num mar de rosas. O próprio Jesus disse que enfrentaríamos problemas e que passaríamos por dificuldades ao longo de nossa caminhada por este mundo (João 16.3).

Isso não quer dizer, no entanto, que nossa vida deva ser repleta somente de dificuldades e perseguições. Por sua imensa compaixão, Jesus nos assegurou bênçãos, alegria e paz. A Bíblia nos mostra que quando estamos no centro da vontade do Pai, as tribulações têm efeito positivo, porque nos ensinam a depender de seu precioso amor.

A palavra tribulação significa sofrimento, aflição e adversidade. Também representa tormento e amargura. “Eis que foi para a minha paz que tive grande amargura, mas a ti agradou livrar a minha alma da cova da corrupção; porque lançaste para trás das tuas costas todos os meus pecados” (Isaías 38.17).

Como filhos de Deus, temos paz com ele através de Jesus Cristo. Fomos justificados, tendo livre acesso à paz e às bênçãos divinas. Porém é muito fácil oferecermos louvor e ações de graças quando tudo está estável. Adorar na calmaria é simples! A Palavra de Deus nos ensina que também devemos dar glórias nas dificuldades, sabendo que a tribulação produz paciência.

A paciência nos ajuda a suportar as dores e os infortúnios com resignação. É uma atitude que expressa nossa compreensão da vontade de Deus. Mesmo sendo uma difícil lição, devemos praticar a paciência em nosso lar, depois praticá-la na igreja local, no tratamento com nossos irmãos em Cristo e até com as pessoas que nos querem mal. “Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração; comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade; abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis” (Romanos 12.12-14).

A tribulação também produz experiência. Assim como um soldado que só adquire experiência no campo de batalha, a experiência cristã demanda tempo na presença do Senhor, adorando-o e servindo-o. Isso porque não se adquire experiência no momento da conversão.

Essa experiência consiste na prática dos preceitos cristãos, na medida em que se obtém conhecimentos necessários para uma vida vitoriosa em Cristo. Há cristãos que não passam na prova da experiência porque são induzidos a pular etapas quando novos na fé. Assim, eles não adquirem o conhecimento e a maturidade espiritual, imprescindíveis para encarar os problemas de frente.

Ao invés disso, murmuram contra Deus e chegam até mesmo a desistir da caminhada cristã. Em virtude disso, é imprescindível a prática da paciência para aprender as lições da experiência. Siga o exemplo de Davi: “Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor” (Salmo 40.1).

Para suportar as tribulações é preciso ter fé. Certa vez, quando estava dando aula para um grupo de adolescentes, expliquei para eles que a fé em Cristo pressupõe três elementos essenciais: sensibilidade, esperança e perseverança.

Sensibilidade
. Presenciei situações de pessoas que não tiveram a sensibilidade suficiente para receber as bênçãos dos céus. Elas não estavam sensíveis à voz do Senhor. Estavam tão incrédulas que foram incapazes de sentir o mover de Deus.
Ter sensibilidade é estar atento ao chamado do Pai. É não criar barreiras internas para a ação sobrenatural do Senhor. Dentre outras razões, a falta de sensibilidade é também um dos impedimentos que obstam o agir de Deus na vida do cristão.

Quando nosso coração não está sensível, deixamos de acreditar que o milagre existiu e damos lugar à dúvida, outro fator que impede que contemplemos o Reino de Deus nesta terra. Abra seu coração e se permita depositar plenamente sua confiança no Senhor.

Esperança. O apóstolo Paulo escreveu: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5.3-5).

Esperança é a atitude de aguardar algo que se deseja e não simplesmente desistir no meio da jornada. O cristão deve esperar, confiando que Deus cumprirá todas as promessas que fez. Nos momentos de angústia não podemos perder a esperança. É um componente essencial da fé. Sem esperança, não há fé.

Jó foi um exemplo de como um servo de Deus pode ser vitorioso nas tribulações. O patriarca perdeu seus filhos e toda sua riqueza em um só dia. Mesmo diante da adversidade, lançou-se em terra e adorou ao Senhor. “Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou” (Jó 1.20).

O relacionamento com Deus não é mera teoria, mas realidade para aqueles que o buscam e esperam o cumprimento de suas promessas. “E disse-me o Senhor: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para cumpri-la” (Jeremias 1.12). Nosso Pai Celestial nunca falha (Isaías 43.13) e está sempre pronto para conceder o desejo do nosso coração (Salmo 37.5), mediante sua perfeita vontade.

Perseverança. As lutas e tribulações fazem parte da vida cristã do mesmo modo que as bênçãos divinas. Jesus disse que no mundo (vida secular) teremos aflições, mas que devemos ter perseverança, pois ele venceu o mundo. As tribulações servem como aperfeiçoamento do caráter cristão.

Durante os Jogos Olímpicos, vemos diversos atletas de diferentes países competindo por uma medalha de ouro. Alguns desses atletas recebem altíssimos patrocínios e gozam de uma vida financeiramente estável. Porém muitos que ali estão não possuem sequer condições para se manterem em seu próprio país de origem. Esses últimos, entretanto, são os que recebem mais atenção da mídia quando conquistam uma medalha.

O motivo? Perseverança.

Os atletas que possuem os melhores equipamentos, a melhor estrutura, os melhores patrocinadores não chamam tanto a atenção quando conquistam a medalha porque, de certo modo, já se era esperado que eles ganhassem, que chegassem ao lugar mais alto do podium. Os verdadeiros heróis são aqueles que conseguem ultrapassar as barreiras do preconceito, do racismo, da quase miserabilidade e conquistam a medalha de ouro.

Os heróis não vivem em casas luxuosas e gozam de uma vida de fartura. Os heróis (de verdade) vencem inimigos muitos mais poderosos do que seus oponentes.

Do mesmo modo acontece na grande maratona cristã que perfazemos a cada dia. É preciso perseverança para vencer os obstáculos da vida e alcançar o grande prêmio: a coroa da vitória em Cristo.


Renato Collyer

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A virtude dentro de cada um

Salomão estava certo. Ele sabia do que estava falando. Quem poderia entender melhor do assunto? Sua sabedoria era sua excelência. E suas palavras, verdadeiras obras-primas. Ele soube valorizar.

No auge de seu entendimento, escreveu em Provérbios, capítulo 31, certas palavras que marcariam, pois inverteriam a concepção natural de uma sociedade. Ele valorizou. Ele simplesmente deu valor a quem merecia.

Salomão começa seu lindo poema com uma pergunta: “Mulher virtuosa, quem a achará?”

Será que isso significava uma espécie de desafio?

Assim como o processo de lapidação de uma jóia, a virtude exige certos cuidados. Salomão sabia disso.

A virtude é companheira da sinceridade, da amizade e, principalmente, da lealdade. Do latim virtus, a virtude é uma qualidade particular. Tem um caráter personalíssimo, uma vez que uma pessoa não pode simplesmente entregá-la a outra. É uma inclinação moral e estável para a prática do bem. Uma única boa atitude não torna uma pessoa virtuosa. A virtude exige reiteração. Uma inclinação ou aptidão pessoal. E é claro que Salomão sabia disso.

E se trocarmos a pergunta: “Uma pessoa virtuosa, quem a achará?”

O rei Salomão sabia que a virtude é o conjunto de práticas constantes, reiteradas, que levam uma pessoa para o bem. Por isso, o motivo da pergunta.

Para Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), considerado por muitos o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental, a virtude representa disposição adquirida para a realização do bem. Essa disposição se aperfeiçoa com o hábito, ou seja, a reiteração. Para o filósofo grego, toda racionalidade prática é destinada a um fim, é dizer, a finalidade suprema é a felicidade. Essa felicidade (eudaimonia) não encontra sustentação ou razão de ser nas riquezas materiais, mas, sim, na virtude, ou melhor, numa vida virtuosa.

Para Aristóteles, em sua obra mais importante sobre Ética, “Ética a Nicômaco”, diferentemente de nosso atual conceito, a virtude é um “justo meio”, a execelência de cada ação, o fazer bem feito, a medida justa, cada pequeno ato praticado por uma pessoa.

O apóstolo Paulo escreveu que de todas as virtudes (fé, esperança e amor), “a maior destas é o amor” (1 Coríntios 13.13).

Não vejo outra melhor maneira de finalizar uma reflexão sobre virtude do que falando sobre o amor. Somente o amor, baseado no grande e excelente amor de Deus, nos torna capazes de praticar a virtude. Não como algo esporádico, mas como uma busca constante em nossas vidas. Busque-o.


Renato Collyer